Pensamentos vagos
Luis Fernando Verissimo
Do baú. A conhecida piada inglesa sobre a razão para as estradas francesas serem arborizadas – era para o exército alemão poder marchar na sombra – os franceses respondiam que Hitler só não ocupou a Inglaterra porque fizeram um plebiscito, e o exército alemão preferiu o clima da Rússia. Os ingleses chamam os franceses de “frogs”, sapos, porque eles comem rãs, entre outras coisas estranhas. E os ingleses, respondem os franceses, que comem até comida inglesa?
A SUA HORA
O escritor inglês Aldous Huxley tinha uma teoria curiosa, segundo a qual a maturidade de certos artistas não dependia da sua idade cronológica, mas de uma espécie de precocidade misteriosamente programada para coincidir com uma vida curta. Ninguém pode dizer o que Mozart faria se tivesse vivido mais do que os trinta e poucos anos que viveu, mas ele dificilmente ficaria mais "maduro" do que já era. Os últimos quartetos de corda de Beethoven, considerados a sua obra mais perfeita, foram compostos pouco antes da sua morte aos 57 anos. Já Verdi morreu com mais de 80 anos, não muito depois de escrever o que dizem ser a sua ópera definitiva, Falstaff, e Goya teve que esperar a velhice e toda a sua amargura para produzir suas melhores gravuras e as fantásticas "pinturas negras", sem as quais sua reputação póstuma não seria a mesma. A teoria de Huxley, improvável, mas literariamente atraente, pressupõe um certo poder profético do artista. Shakespeare escreveu A Tempestade com 47 anos, sem saber que seria sua última peça (ele morreu com 52), mas ela tem o tom adequado de um testamento e de uma despedida, como mago Próspero, senhor de todos os dramas e tramas vistos sobre o palco, declarando seu sortilégio acabado e anunciando sua aposentadoria em Milão, onde cada terceiro pensamento será sobre sua sepultura. O final da peça é tão adequado que suspeita-se que tenha sido acrescentado depois da morte do autor, mas pode-se imaginar Shakespeare, de volta a Stratford-on-Avon e acossado por maus pressentimentos, dando o mote para todos os artistas ainda por vir: quando pensamentos sobre a sepultura começarem a se tornar muito frequentes, apresse-se e providencie seu legado definitivo. Está chegando a sua hora, não importa a sua idade. O poeta W.H. Auden, comentando a especulação de Huxley, levou-a ainda mais longe. Disse que os artistas morrem quando querem, ou quando devem. E que, portanto, não existem obras de arte incompletas.
PARA ONDE VÃO OS SEIOS
Pensamentos de uma mente vaga, vendo as fotos de um desses desfiles de moda: para onde vão os seios à mostra quando saem das passarelas? Em todos os desfiles de moda pelo menos metade das modelos mostra roupas transparentes em que os seios aparecem. Mas é raro encontrar alguém na, digamos, vida civil usando as mesmas roupas, ou roupas com a mesma transparência. Os seios não aparecem na mesma proporção, quando as roupas saem das passarelas para a realidade. Ou eu é que ando frequentando a realidade errada? Pode-se argumentar que os desfiles são representações de um ideal impossível de ser reproduzido no cotidiano. Num desfile de moda todas as mulheres são lindas, altas e magras. São, por assim dizer, mulheres destiladas, ou a mulher como ela sonha ser - e andar, e brilhar, e vestir roupas caras. Desta maneira, os seios à mostra nos desfiles também seriam idealizações. Só seriam seios reais se viessem junto com o vestido, e a mulher, usando sua transparência, automaticamente ficasse com seios de manequim. As manequins são como aqueles desenhos nos cartões à sua frente nas poltronas dos aviões, de pessoas ajustando o colete salva-vidas, colocando as máscaras de oxigênio, assumindo a posição adequada para o caso de queda do avião, atirando-se pelo tobogã para sair do avião acidentado - enfim, em situações de emergência. E nenhuma daquelas pessoas tem cara de quem está numa situação de emergência. Não estão exatamente sorrindo, mas sua expressão é de quem enfrenta emergências com naturalidade, até com uma certa indiferença. São o tipo de pessoas que seguiriam as instruções de respirar normalmente depois de colocar as máscaras de oxigênio - coisas que você e eu nunca faríamos. As manequins são assim. Desfilam como se ser magnífica, com seios magníficos, fosse uma coisa comum. Na vida real, poucas mulheres podem usar uma roupa cara com a cara que a roupa cara merece, como fazem as manequins. Como na vida real, ninguém respira normalmente durante uma emergência.
Domingo, 4 de julho de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.